
Aprendi a ficar em silêncio.
Não o silêncio mudo, quieto e sem efeito. O meu silêncio estronda os quatro cantos da parede do meu quarto, os alicerces da minha casa, o bairro inteiro acorda com esse silêncio e o fato é que nada nesse mundo conseguiria ser mais barulhento, ensurdecedor e conflitante do que um pensamento solto no silêncio de desequilibradas palavras, desajeitados gestos e vergonhosos olhares.
As palavras nada dizem e dizem menos ainda as intenções com as quais essas desequilibradas, delinqüentes e dementes frases foram jogadas nos ouvidos do mundo. Todo esse repertório de sílabas que estalam a língua e os dentes, depois a língua e os lábios, depois os lábios e os dentes, o céu da boca (...) não dizem nada além da terrível limitação de não saber o que se quer e é essa característica de um senso comum limitado que joga por terra qualquer chance dessas palavras ficarem em um silêncio individual. Que se exploda! Vá ao mundo desequilibradas, delinqüentes e dementes palavras, porque é no mundo que essas letras devem ganham a vida boêmia que desejo.
Os gestos, desajeitados e imprecisos confundem mais do que explicam e é lógico que não foram feito para explicações teóricas acerca do vazio ou do inconseqüente, porém tampouco foram imaginados para confundir. Como se fosse uma ilha a procura do sol* o corpo se coloca numa busca de desejos, prazeres e inquietudes, caçando ao redor de tudo o que lhe faz bem o ilimitado e o infinito, mas é a realidade que puxa os pés de sonhadores corpos para abaixo de sete palmos e os mostra os quão condicionados estes estão daquilo que é objetivo e concreto da sua terrível limitação.
Os olhares, estas silenciosas portas por onde se consegue captar o que há de mais belo e o que existe de maior em sentimentos, os olhares... Esses nada dizem e nada explicam, apenas confundem ou ao menos é a confusão de uma explicação que não teria como descrever em palavreados inúteis e sem vida.
Esse silêncio é o que sustenta o peso dos meus sonhos, é este silêncio que faz com que a cada novo despertar da consciência um novo desejo brote no meu corpo pesado para sair da prisão que construí em volta de planos que nunca serão concretizados e que eu já não abro mão, parece impossível. E é. Mas e daí?
Que se exploda!